Aldir Blanc

Carta de Pedra

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Prezado amigo, escrevo para esclarecer
Que, mesmo antes de nascer,
Meu coração se fez humano por ser suburbano
E o HIV
Deu positivo porque meus irmãos
Padecem de doença igual
E um degrau atrás de outro degrau
Me leva de joelhos à igreja onde deus me diz
Que o humano é estranho, sim,
Porque é meu pai e, ai de mim,
Nós nos desentendemos sempre
E é assim que se faz
Canções, escadas, catedrais
Que depois não visitamos mais
- dão de nós o melhor testemunho.
Prezado amigo, eu vi sair do papel
A pedra e o fogo que há no céu
E tudo parecia letra de chorinho
E então também chorei...
Os meus avós e o pai são degraus
Aonde eu piso em direção ao caos
Mas posso ver na beira goiabeiras,
Limoeiros, pés de sapoti
E a penha volta aqui
Feito o mito de uma ressurreição.
A hóstia é pedra - hei de ralar!,
A santa não pode cumprir o que não me crismar:
O pai que eu amo não demora,
A valsa chora e eu sei vou inventar
Até que a própria virgem
Mande eu descansar...


Autor(es): Aldir Blanc / Guinga

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