Rolando Boldrin

Memória de Carreiro

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Quando ouço na chapada
O tinir da canga e do carretão
Sinto por dentro uma pontada
Ai que dor no coração
É que esse canto em eras passadas
Representava uma aliança
Entre os cascos na poeira das estradas
Meus sonhos de criança

O canto da passarada
Com o carro duetava
O azul do céu com a terra
Naquele instante se encontrava
O orvalho da manhã
Era cristal na luz do dia
Até parecia o amor
Ardente do zoio de Maria

Eh tempo que foi
Te guardo no coração
Eh carro de boi
Sumiste no estradão

Eh tempo que foi
Te guardo no coração
Eh carro de boi
Sumiste no estradão

Hoje tenho as mãos calejadas
Meu trabalho é duro e cruel
Só me restou uma sorte marvada
Boi de canga do coronel
Faço parte dessa manada
Na cidade tonta e perdida
Me vem na garganta
Um nó de laçada
No meu peito uma sodade doída

A cantoria da chapada
Hoje é buzina de metal
O aboio da boca da noite
Hoje é sirene de hospital
Orvalho só resta nos olhos
O sol já não faz meio-dia
O que ainda me sustenta
E fé em Deus e paz na guia

Eh tempo que foi
Te guardo no coração
Eh carro de boi
Sumiste no estradão

Eh tempo que foi
Te guardo no coração
Eh carro de boi
Sumiste no estradão

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